CARTA DE PETRÓPOLIS

Os abaixo assinados, reunidos ao longo dos dias 23 e 24 de novembro de 2002, na Cidade Imperial de Petrópolis, atendendo a um chamamento de união e de abertura dos espíritos em prol da Causa Monárquica, com base em práticas de oficina de trabalho, procedemos a um exame desapaixonado do que vem ocorrendo com o Movimento Monarquista (MM) desde o plebiscito de 1993, projetando, ao mesmo tempo, uma estimulante visão de futuro que seja nossa estrela-guia.

Nossa reunião teve sua origem nas facilidades e baixo custo permitidos pelo uso da internet na comunicação interpessoal. O Encontro de Petrópolis foi aberto a todos que quises-sem participar sem nenhum tipo de discriminação. Não foram distribuídos convites formais, mas foram recebidos de braços abertos todos os que se dispuseram a comparecer. A ausência dos príncipes foi a condição natural para permitir uma discussão mais à vontade do tipo brain-storming. E também para que reavaliássemos nossa posição face aos mesmos. Cobrar apenas dos príncipes brasileiros o que podem fazer pela Causa nos pareceu cômodo demais de nossa parte. Centramos nossa atenção na contribuição que podemos lhes dar e também à Causa para que nosso sonho se torne realidade num horizonte de 15 anos. Em momento algum, foi posta em dúvida a fidelidade dos presentes ao Brasil, à Casa de Bragança, a ser preservada, e ao importante papel dos príncipes.

A análise retrospectiva do que ocorreu desde 1993 não foi nada tranquilizadora. Houve consenso sobre a baixa voltagem com que o Movimento Monarquista vem atuando. A luz vermelha acendeu quando tomamos conhecimento do pedido de afastamento de um monarquis-ta histórico da presidência de uma tradicional agremiação monarquista localizada na cidade do Rio de Janeiro. Constatamos que esse sentimento de jogar a toalha, de desistir, seguido de atitudes nessa direção, vem crescendo entre nós. Por sua vez, nenhuma causa vai em frente se não houver entusiasmo e confiança no futuro. Precisamos, sem perda de tempo, crescer e não encolher.

A principal deficiência observada foi a ausência de um planejamento estratégico acom-panhado de um monitoramento sistemático das metas estabelecidas. Se existem metas já estabelecidas para serem atingidas, certamente não satisfazem à condição de metas SMART, ou seja, eSpecíficas (e eScritas), Mensuráveis, Alcançáveis, Relevantes e Temporais. Sem satisfazerem a essas condições não passam de declaração de boas intenções, a matéria-prima que pavimenta o caminho para o inferno. Vale ressaltar o caráter temporal da meta. Ela tem que ter data para acontecer. Daí mencionarmos um período de 15 anos como tempo hábil para restaurar a monarquia no Brasil. A liderança do MM precisa dotá-lo de uma visão compartilhada e apoiada por todos, capaz de ser abrangente e detalhada, positiva e inspiradora e alavancada por instrumentos de ação prática.

Buscamos balizar nossas conclusões e propostas levando em conta nossos pontos fortes e fracos, as oportunidades existentes e as ameaças que nos rondam, internas e externas. Dentro desta linha de pensamento e dinâmica de trabalho, chegamos a um consenso em torno dos seguintes pontos:


- unir todos os monarquistas sob a bandeira de uma frente ampla;
- traçar um plano estratégico e estabelecer uma poderosa visão de futuro;
- ter claro que a legitimidade também deve estar a serviço da Causa;
- tratar a educação do futuro monarca como assunto de Estado;
- separar, no âmbito do MM, Chefia de Governo da Chefia de Estado e
- dotar o MM, com base numa proposta criativa, de autonomia financeira.


Dedicamos muita atenção ao último item referente à autonomia financeira do MM por ser ele o divisor de águas entre uma atuação amadora e outra, como precisa e deve ser, de cunho profissional. A trajetória do PT, que soube inclusive se estruturar financeiramente, bem demons-tra como uma organização política pode chegar ao poder num período de tempo relativamente curto. Existem formas e modos éticos e lícitos de angariar recursos financeiros para o MM dando em troca produtos e serviços úteis e legítimos a todos que contribuírem para com a Causa.

É fundamental que o futuro monarca, integrante da linha legitimista, receba uma educação a ser tratada como assunto de Estado e não meramente como assunto exclusivo da Família Imperial. Esta é a única maneira de envolver o coração e a mente de cada brasileiro nesse processo. Caberia a um Conselho Monárquico, formado por representantes dos diversos setores da sociedade brasileira, auxiliar a educação e o preparo do futuro monarca em consonância com a Família Imperial. As Instruções do Marquês de Itanhaém, anexas a esta carta, aos preceptores de Dom Pedro II ainda são atuais – mais de século e meio depois! – para dar rumo ao futuro Conselho, em especial o seu artigo 4, cujo espírito de conciliação bem poderia nos servir, aos príncipes e a nós, para retomar o MM em novas bases, onde prevaleça a união. Se derrotar os planos do inimigo e impedir a reunião de suas forças são, nessa ordem, a forma mais refinada da estratégia político-militar, essas práticas seriam devastadoras se prevalecessem entre nós. Garantiriam, de antemão, nosso insucesso.

Nenhum brasileiro monarquista está lutando para colocar sua própria família no trono. Esta mesma prova de desprendimento deve ser dada por todos os príncipes para que a legitimidade seja posta a serviço da Causa. E não o inverso. A ordem desses fatores altera o produto e terá forte influência na maior ou menor velocidade com que vamos atingir a meta maior da restauração – nossa missão. Ou mesmo, se vamos atingí-la algum dia antes que a república esteja definitivamente consolidada. O tempo urge, ruge e trabalha contra nós.

Não se trata de pedir renúncias, mas de um firme compromisso em torno de príncipes mais jovens cuja idade permita pôr em prática o que está sendo proposto. Isso nada mais é do que fazer valer nossa tradição histórica levando em conta os novos tempos de que o Brasil tanto necessita para restaurar sua auto-estima, dignidade e honra. O desprendimento da princesa Isabel levou-a a afirmar: “Mil tronos houvera, mil tronos perderia para libertar uma raça da escravidão.” O exemplo de prioridades corretas nos vem de Dom Pedro II que, nos Conselhos à Regente, grafava Brasileiro com B maiúsculo e imperador com i minúsculo. Disse também ao Barão do Rio Branco em dúvida, que continuasse a servir o País como diplomata, pois o Brasil vinha em primeiro lugar, mesmo sob regime republicano. Ambos deram provas cabais de seu entranhado amor pelo Brasil, ainda que o preço fosse o trono. Agora, o desprendimento pessoal tem um final feliz: a restauração do trono. É preciso que os legítimos sucessores de Dom Pedro II façam um profundo exame de consciência e abram caminho em direção a quem esteja mais

dotado na linha sucessória para tornar o sonho realidade nestes tempos conturbados e velozes. Saber adaptar-se é imperioso no processo de sobrevivência bem sucedida.

É importante que mais de um príncipe – um príncipe e uma princesa pelo menos – fosse preparado para exercer a Chefia de Estado. A existência uma alternativa faz parte de um plano bem feito. Psicologicamente, é extremamente importante que esses príncipes saibam, desde já, que têm uma missão maior a realizar na vida. Um príncipe herdeiro que vai lutar pelo trono nas horas vagas de suas atividades profissionais dificilmente chegará a bom termo. Mas, para tanto, é preciso vontade política, ampla aceitação pela Nação da educação a lhe ser ministrada e um mínimo de tranquilidade financeira para seu próprio sustento. Temos que fazer ver à Nação Brasileira que a tecnologia monárquica é imbatível quando se trata de formar um Chefe de Estado. Seu grau de isenção e de equilíbrio jamais será igualado por um chefe de estado republicano sempre dependente, quando não refém, de favores de grupos econômicos e de partidos políticos para chegar e se manter no poder. Cabe aos monarquistas e aos príncipes trabalhar arduamente para que o povo brasileiro perceba a importância de ter um aliado fiel e permanente que o defenda contra interesses e políticos menores.

A modernidade da monarquia brasileira durante o século XIX salta aos olhos quando comparada aos dias de hoje. Quando o presidente eleito fala em restabelecer audiências popu-lares, nos vem à mente o que ocorria, todo sábado, nos jardins do Paço Imperial de São Cristó-vão, de 17 às 19 horas, em que Dom Pedro II recebia a todos, sem qualquer distinção e sem marcar audiência prévia. Quando nos entusiasmamos com a defesa da ecologia, nos lembramos dos 17 anos de replantio da floresta da Tijuca ocorrido sob o Segundo Reinado. A estabilidade claudicante da moeda conseguida nos últimos 8 anos nos faz lembrar que a inflação durante os quase cinquenta anos do Segundo Reinado foi em média de 1,5% ao ano. Este percentual irrisório é prova cabal da plena responsabilidade fiscal vigente naquela época, ou seja, do respeito ao dinheiro público e ao poder aquisitivo dos menos favorecidos. A comemoração de uma transição pacífica da faixa presidencial também nos remete aos vários gabinetes de Pedro II, que se sucederam ordeiramente, além do exemplo comovente da abdicação de Pedro I. A liberdade de imprensa e de pensamento, tão comemorada hoje, era moeda corrente durante todo o Segundo Reinado. A proposta, aparentemente moderna, de controle externo do judiciário com a finalidade de coibir os abusos de juízes corruptos já constava da constituição imperial. O Imperador, ouvido o Conselho de Estado, podia suspender de função um juiz e deixá-lo à disposição para julgamento futuro sem privá-lo do direito de defesa. A criação do Ministério da Defesa ocupado por um civil, que nos é apresentado como um grande avanço, mal esconde o fato histórico de que os Ministérios da Guerra e da Marinha eram, durante o Segundo Reinado, normalmente ocupados por civis ciosos de que os militares tinham que estar sob o firme comando do poder civil.

Dói muito rever esse mesmo filme com mais de cem anos de atraso e lembrar que o PIB acumulado caiu quase 30% nos dez primeiros anos da república. Quando se cai de um patamar de 100 para 70, é preciso crescer quase 50% para voltar a 100. A república, como sempre, marcando passo. Ou a ré-pública, como já disse há muito Dom Pedro Henrique, também na economia. A questão tão atual de dar acesso ao negro à plena cidadania nos remete ao fato de que 80% da população de origem africana já estava livre quando foi assinada a Lei Áurea e que o Gabinete Ouro Preto, o último do Império, tinha um plano para distribuir terras aos libertos ao longo dos rios e estradas, que a república engavetou por muitas décadas. O tratamento dado à questão servil denotava o dedo de profissionais, que buscaram resolver o problema paulatinamente, sem mergulhar o país numa guerra civil sangrenta como aconteceu nos EUA. A libertação dos escravos e sua socialização, bem como o estímulo às muitas alforrias, foram bandeiras perenes de nossos dois Imperadores e de nossa Princesa Isabel. Ela que dançou em bailes no Paço Imperial com André Rebouças, engenheiro negro cujos estudos foram financiados por Pedro II com recursos próprios. A própria fome, justamente denunciada pelo presidente eleito, nunca foi um problema realmente sério durante o Império. Basta observar o aspecto físico do povo nas gravuras de Rugendas, de Debret e nas fotografias que registram diversas cenas da vida do Segundo Reinado.

Como se pode constatar, foi um imenso esforço para nos reaproximar do patamar em que nos encontrávamos há mais de um século. A nós, monarquistas, nos enche de orgulho saber que a herança institucional do Império foi tão comprometida com a defesa do interesse público que mais de cem anos depois ainda se revela atual. Estes fatos históricos comprovam o que foi dito, em setembro deste ano, em Natal-RN, pelo Prof. Carlos Lessa, reitor da UFRJ, quando afirmou que o brasileiro não tinha um problema de auto-estima durante o século XIX, tão agudo hoje sob a república, em que a qualidade e a probidade dos homens públicos são diariamente questionadas pela imprensa. Nós, monarquistas, nos orgulhamos também da modernidade e da atualidade das monarquias constitucionais existentes no mundo. Quando arrolamos indicadores sociais, culturais, econômicos, ambientais, de estabilidade institucional e outros, verificamos que os países que são monarquias estão sempre na ponta. Embora muitos desconheçam, foi sob monarquias constitucionais que os partidos socialistas e trabalhistas mais conseguiram fazer avançar e implantar as profundas reformas sociais previstas em seus programas. Suécia e Espanha são dois bons exemplos disso. Dentre os 25 países mais democráticos e ricos do mundo, 18 são monarquias. Recentemente, dois intelectuais ingleses não-monarquistas resolveram fazer uma lista dos cinco países que ofereciam as melhores condições de exercício pleno da cidadania com excepcional qualidade de vida e tiveram que reconhecer a contragosto que todos eram monarquias constitucionais.

Mas não podemos jamais adotar a atitude cega de Luis XIV que concentrou a nobreza no Palácio de Versalhes em funções honoríficas inúteis, eliminando a correia de transmissão exercida por ela entre o povo e o monarca, que acabou isolando a corte do povo, desembocan-do na fratricida Revolução Francesa. E muito menos ter a postura de um pretendente ao trono francês que se recusou a reinar com as cores azul, branco e vermelha, insistindo na volta do branco e do dourado para que assumisse o trono. Estes foram dinastas com vocação para o suicídio histórico, a última coisa de que precisamos. Conduzir o MM brasileiro dentro da perspectiva de que existe um grupo de iluminados detentores da verdade nos aproximaria de uma visão excludente que durante décadas dominou o Comitê Central do Partido Comunista da ex-URSS. Deu no que deu. Conversar e negociar sempre foi a linguagem dos dinastas esclarecidos. Cabe a nós, manter essa tradição civilizada e civilizadora.

Além do mais, a nobreza brasileira nunca foi de sangue. Os títulos com grandeza reco-nheciam méritos. Eram vitalícios, mas não hereditários. A cada geração, essa nobreza tinha que se reinventar para reconquistar seus títulos. Tinha que se manter alerta e disposta a lutar pelo bem da Nação Brasileira para merecê-los. Havia um quê de competição muito saudável pelo bem da Pátria, que renovava o círculo de pessoas que cercava o monarca. A única exceção era a Família Imperial. Caso contrário, descaracterizaria a monarquia ao ter uma nova família no trono a cada reinado e uma luta pelo poder profundamente desestabilizadora das instituições nacionais.

Tudo isso nos enche de responsabilidade. Existe muito trabalho a ser feito. O equacionamento financeiro do MM precisa acontecer com a devida brevidade. Não há mais espaço para amadorismos de qualquer espécie. Temos que avançar em bases profissionais para obter êxito. Nosso sucesso vai depender de nossa união e do comprometimento de cada um de nós e dos príncipes com a Causa.

Aproveitamos o ensejo para agradecer a todos aqueles que mantêm viva a chama da luta pela monarquia – ontem, hoje e amanhã. Registramos nosso agradecimento especial ao Deputado Cunha Bueno pelas vitórias que não podem ser esquecidas: a derrubada da Cláusula Pétrea, que nos mantém na luta, e a elaboração do Projeto de Constituição Monárquica, trabalho que se mantém atual até hoje pela objetividade e clarividência. Ressaltamos ainda sua combati-vidade, habilidade política e tenacidade patriótica na convocação do Plebiscito de 1993, pelo que merece a gratidão e o reconhecimento dos monarquistas e patriotas em geral.

Convidamos os homens e as mulheres de boa vontade entre nós para estarem pre-sentes ao nosso próximo encontro, em Petrópolis, pelo resgate de nossa verdadeira cidadania e em prol de uma causa realmente nobre – o Brasil.

Petrópolis, 2 de dezembro de 2002

Gastão Reis Rodrigues Pereira

Alan Assumpção Morgan

Roberto Mourão Figueiredo Silva

Roberto R. M. Nobre Machado

Luiz Costa de Lucca Silva

Bruno Hellmuth

Laerte Lucas Zanetti

Mário de Freitas Esteves

Gumercindo Rocha Dorea

ANEXO
As monarquias planejam seus Chefes de Estado
A EDUCAÇÃO DE DOM PEDRO II

Todos sabem que a vida do Imperador Dom Pedro II, deixada de lado qualquer consideração favorável ou desfavorável à Monarquia, foi marcada pelos bons exemplos, a ponto de afirmar-se ter sido ele "o sucessor de Marco Aurélio". O que poucos sabem é que Dom Pedro tornou-se órfão com poucos anos de vida, sendo criado por tutores designados pela Assembléia brasileira - José Bonifácio de Andrada e Silva e pelo Marquês de Itanhaém -, os quais imprimiram ao jovem príncipe a melhor educação humanista possível de ser ministrada na época, o início do Século XIX. Coube ao segundo dos tutores, Manoel Inácio de Andrade Souto Maior Pinto Coelho, fixar em "Instrucções" os princípios a observar na educação do príncipe, o que ele fez a 2 de dezembro de 1838, redigindo um texto ainda hoje um modelo a observar para quantos desejam cercar a formação dos jovens dos cuidados que asseguram a maturidade e seu perfeito desenvolvimento. Resumindo as "Instrucções" do Marquês de Itanhaém, e modernizando a grafia do Português da época, eis as recomendações que a História prova terem sido observadas à risca, porque a vida de Dom Pedro II foi a própria comprovação de que aprendeu as lições.
Deputado Cunha Bueno

"Instruções para serem observadas pelos Mestres do Imperador na Educação Literária e Moral do Mesmo Augusto Senhor. ".

Artigo 1.
Conhece-te a ti mesmo. Esta máxima... servirá de base ao sistema de educação do Imperador, e uma base da qual os Mestres deverão tirar precisamente todos os corolários, que formem um corpo completo de doutrinas, cujo estudo possa dar ao Imperador idéias exatas de todas as coisas, a fim de que Ele, discernindo sempre do falso o verdadeiro, venha em último resultado a compreender bem o que é a dignidade da espécie humana, ante a qual o Monarca é sempre homem, sem diferença natural de qualquer outro indivíduo humano, posto que sua categoria civil o eleve acima de todas as condições sociais.

Artigo 2.
Em seguimento, os Mestres, apresentando ao Seu Augusto Discípulo este planeta que se chama terra, onde nasce, vive e morre o homem, lhe irão indicando ao mesmo tempo as relações que existem entre a humanidade e a natureza em geral, para que o Imperador, conhecendo perfeitamente a força da natureza social, venha a sentir, sem o querer mesmo, aquela necessidade absoluta de ser um Monarca bom, sábio e justo, fazendo-se garbo de ser o amigo fiel dos Representantes da Nação e o companheiro de todas as influências e homens de bem do Pais.

Artigo 3. Farão igualmente os Mestres ver ao Imperador que a tirania, a violência da espada e o derramamento de sangue nunca fizeram bem a pessoa alguma...

Artigo 4.
Aqui deverão os Mestres se desvelar para mostrarem ao Imperador palpavelmente o acordo e harmonia da Religião com a Política, e de ambas com todas as ciências; porquanto, se a física estabelece a famosa lei da resistência na impenetrabilidade dos corpos, é verdade também que a moral funda ao mesmo tempo a tolerância e o mútuo perdão das injúrias, defeitos e erros; essa tolerância ou mútuo perdão, sobre revelar a perfeição do Cristianismo, revela também os quilates das almas boas nas relações de civilidade entre todos os povos, seja qual for sua religião e a forma do seu governo...

Artigo 5.
Lembrem-se pois os Mestres que o Imperador é homem; e partindo sempre dessa idéia fixa, tratem de lhe dar conhecimentos exatos e reais das coisas, sem gastarem o tempo com palavras e palavrões que ostentam uma erudição estéril e prejudicial, pois de outra forma virá o seu discípulo a cair no vicio que o Nosso Divino Redentor tanto combateu no Evangelho, quando clamava contra os doutores que invertiam e desfiguravam a lei, enganando as viúvas e aos homens ignorantes com discursos compridos e longas orações, e se impondo de sábios, embora sendo apenas uns pedantes faladores.

Artigo 6.
Em conseqüência os Mestres não façam o Imperador decorar um montão de palavras ou um dicionário de vocábulos sem significação, porque a educação literária não consiste decerto nas regras da gramática nem na arte de saber por meio das letras; em conseqüência os Mestres devem limitar-se a fazer com que o Imperador conheça perfeitamente cada objeto de qualquer idéia enunciada na pronunciação de cada vocábulo...

Artigo 7.
Julgo portanto inútil dizer que as preliminares de qualquer ciência devem conter-se em muito poucas regras, assim como os axiomas e doutrinas gerais. Os Mestres não gastem o tempo com teses nem mortifiquem a memória do seu discípulo com sentenças abstratas; mas descendo logo às hipóteses, classifiquem as coisas e idéias, de maneira que o Imperador, sem abraçar nunca a nuvem por Juno, compreenda bem que o pão é pão e o queijo é queijo.

Assim, por exemplo, tratando das virtudes e vícios, o Mestre de Ciências Morais deverá classificar todas as ações filhas da soberba distinguindo-as sempre de todas as ações opostas que são filhas da humildade. E não basta ensinar ao Imperador que ohomem não deve ser soberbo, mas é preciso indicar-lhe cada ação, onda exista a soberba, pois se assim não o fizer, bem pode acontecer que o Monarca venha para o futuro a praticar muitos atos de arrogância e altivez, supondo mesmo que tenha feito ações meritórias e dignas de louvor, e isto por não ter, em tempo, sabido conhecer a diferença entre a soberba e a humildade.

Artigo 8.
Da mesma sorte, tratando-se das potências e das forças delas, o Mestre de ciências físicas fará uma resenha de todos os corpos computando os grãos de força que tem cada um deles, para que venha o Imperador a compreender que o poder monárquico se limita ao estudo e observância das leis da Natureza... e que o Monarca é sempre homem e um homem tão sujeito, que nada pode contra as leis da Natureza feitas por Deus em todos os corpos, e em todos os espíritos.

Artigo 9.
Em seguimento ensinarão os Mestres ao Imperador que todos os deveres do Monarca se reduzem a sempre animar a Indústria, a Agricultura, o Comércio e as Artes; e que tudo isto só se pode conseguir estudando o mesmo Imperador, de dia e de noite, as ciências todas, das quais o primeiro e principal objeto é sempre o corpo e a alma do homem; vindo portanto a achar-se a Política e a Religião no amor dos homens. E o amor dos homens é que é o fim de todas as ciências; pois sem elas, em vez de promoverem a existência feliz da humanidade, ao contrário promovem a morte.

Artigo 10.
Entendam-me porém os Mestres do Imperador. Eu quero que o meu Augusto Pupilo seja um sábio consumado e profundamente versado em todas as ciências e artes e até mesmo nos ofícios mecânicos, para que ele saiba amar o trabalho como principio de todas as virtudes, e saiba igualmente honrar os homens laboriosos e úteis ao Estado. Mas não quererei decerto que Ele se faça um literato supersticioso para não gastar o tempo em discussões teológicas como o Imperador Justiniano; nem que seja um político frenético para não prodigalizar o dinheiro e o sangue dos brasileiros em conquistas e guerras e construção de edifícios de luxo, como fazia Luís XIV na França, todo absorvido nas idéias de grandeza; pois bem pode ser um grande Monarca o Senhor D. Pedro II sendo justo, sábio, honrado e virtuoso e amante da felicidade de seus súditos, sem ter precisão alguma de vexar os povos com tiranias e violentas extorsões de dinheiro e sangue.

Artigo 11.
Sobretudo, recomendo muito aos Mestres do Imperador, hajam de observar quanto Ele é talentoso e dócil de gênio e de muita boa índole. Assim não custa nada encaminhar-lhe o entendimento sempre para o bem e verdade, uma vez que os Mestres em suas classes respectivas tenham com efeito idéias exatas da verdade e do bem, para que as possam transmitir e inspirar ao seu Augusto Discípulo.

Eu não cessarei de repetir aos Mestres que não olhem para os livros das Escolas, mas tão somente para o livro da Natureza, corpo e alma do homem; porque fora disto só pode haver ciência de papagaio ou de menino de escola, mas não verdade nem conhecimento exato das coisas, dos homens, e de Deus.

Artigo 12.
Finalmente, não deixarão os Mestres do Imperador de lhe repetir todos os dias que um Monarca, toda a vez que não cuida seriamente dos deveres do trono, vem sempre a ser vitima dos erros, caprichos e iniqüidades dos seus ministros, cujos erros, caprichos e iniqüidades são sempre a origem das revoluções e guerras civis; e então paga o justo pelos pecadores, e o Monarca é que padece, enquanto que seus ministros sempre ficam rindo-se e cheios de dinheiro e de toda sorte de comodidades. Por isso cumpre absolutamente ao Monarca ler com atenção todos os jornais e periódicos da Corte e das Províncias e, além disto, receber com atenção todas as queixas e representações que qualquer pessoa lhe fizer contra os ministros de Estado, pois só tendo conhecimento da vida pública e privada de cada um dos seus ministros e Agentes é que cuidará da Nação. Eu cuido que não é necessário desenvolver mais amplamente estas Instruções na certeza de que cada um dos Mestres do Imperador lhe adicionará tudo quanto lhe ditarem as circunstâncias à proporção das doutrinas que no momento ensinarem. E confio grandemente na sabedoria e prudência do Muito Respeitável Senhor Padre Mestre Frei Pedro de Santa Mariana, que devendo ele presidir sempre a todos os atos letivos de Imperador como seu Aio e Primeiro Preceptor, seja o encarregado de pôr em prática estas Instruções, uniformizando o sistema da educação do Senhor Dom Pedro II, de acordo com todos os outros Mestres do Mesmo Augusto Senhor".
Paço da Boa Vista no Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1838
Marquês de Itanhaém - Tutor da Família Imperial




Gastão Reis
Empresário e economista
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